quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A velha está mais velha?

Este fim-de-semana a Cooperativa Cultural Velha-a-Branca comemora três anos de vida. Lembro-me de ter visto lá - ainda antes da inauguração - uma peça de Samuel Beckett. Era mais uma série de instalações do que uma peça, mas deu para conhecer o estaleiro cultural. Desde esse dia a velha cresceu muito e - graças à vontade de todos os cooperadores - lá se foi plastificando; para o bem e para o mal.

Começou por ter um pequeno bar de apoio às exposições e eventos e agora tem um bar como outro qualquer, mas apoiado pelas exposições e eventos. A velha adaptou-se aos tempos de que se queria distanciar e mudou, ainda que maquilhada para não parecer mais nova. Profissionalizou-se, mas não diz a ninguém para poder continuar a competir com estatuto especial: o de amador.

Mas não se enganem: eu gosto da velha e reconheço-lhe muito mérito - pondero, aliás, fazer-me amigo da velha, mas a prioridade é ser sócio do Braga. A velha ofereceu-me - a mim e a muitos bracarenses - belos momentos culturais e sociais; despertou muitas culturas adormecidas e criou interessantes dinâmicas culturais.

Deixo daqui os meus parabéns à associação cooperativa e a todos os que a fizeram ao longos destes três anos. Deixo ainda o meu sincero desejo de que a velha continue a crescer, mas que não o faça só porque sim; as rugas não envergonham nada e têm muito mais charmes que tiques e manias.

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sexta-feira, 17 de agosto de 2007

do comércio tradicional cultural ou da falta dele ii

Tenho de admitir que fui infeliz na escolha do título para o post anterior; referia-me em exclusivo ao comércio cultural, isso sim. A minha ideia era aproveitar e dinamizar os espaços comerciais abandonados no centro da cidade. Lembro-me do Lafayette, da Galeria da Rua dos Chãos, do Centro Comercial Santa Bárbara, mas em especial do Centro Comercial Santa Cruz, que é de todos o que tem mais espaço livre e ocupa um espaço privilegiado: as costas do Theatro Circo.

A minha ideia não é nova e é inspirada tanto em Urueña como na portuense Rua Miguel Bombarda. Consistia no apoio à criação de pequenas lojas de comércio cultural alternativo - e falo em lojas de música, livrarias e até roupa - e ao arrendamento de espaços para ateliers e escritórios a jovens artistas.

Não seriam lojas para concorrer com fnaques ou bertrandes, mas antes para responder às necessidades de consumo de uma importante fatia dos consumidores; jovens que viajam frequentemente ao Porto e a Lisboa para saciar essas necessidades. Falo da oposição ao conservadorismo católico que já resultou em bandas como os Mão Morta ou os Um Zero Amarelo ou em associações culturais como a Velha-a-Branca. Falo de uma parte importante da juventude urbana bracarense, não só de meia dúzia; falo de pessoas que sacam mp3 mas também consomem música e tudo o que gira à volta dela; de pessoas a que não chega a Centésima Página e uma Feira do Livro uma vez por ano; de criadores - independentemente da arte -; de bracarenses que merecem ser tratados como tal.

Não faz sentido pensar em criar lojas de discos para rivalizar com um fnac, mas faz sentido pensar em lojas de discos especializadas e de raridades; não faz sentido pensar em criar mais livrarias especializadas em manuais escolares, mas fazem falta livrarias especializadas e que apostem em versões originais de livros não editados em Portugal - falo de mais Centésimas Páginas; não faz sentido criar lojas para rivalizar com lojas de decoração ou roupa normais, mas o retro e alternativo é um mercado por explorar na nossa cidade.

Penso que é importante apoiar também os criadores não-musicais bracarenses. E se há espaço, porque não torná-lo útil e rentável?

Cultura também é isto, na minha opinião.

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do comércio tradicional ou da falta dele

Por estes dias reparei que das lojas de discos em Braga - que já eram poucas! - só sobraram duas: a Carbono - que passou a Louie Louie e até cresceu um bocadito - e a Scorpius. A cultura não é só exposições e concertos, mas é também mercado e consumo. Seria de mau tom apoiar a criação de lojas de discos, livrarias ou salas de exposições? Penso que não. O comércio cultural parece-me, aliás, importantíssimo para uma cidade que pretende ser capital cultural. E sim, acredito que Braga tem espaço e carisma para ser um pólo cultural; falta é trabalho e vontade das instituições.

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